segunda-feira, 17 de outubro de 2011

VIII - The Devil is Mara





Frase do capítulo:
"Quero apanhar na rua."
Bruno Gagliasso
Inferno, 50 anos luz antes do Hypogloss
Tião acordou desorientado, sem saber onde estava. Abriu os olhos com dificuldade, espiou em volta, ergueu-se lentamente do chão quentinho e enfumaçado enquando ajeitava a roupa e tateava o rosto procurando pela máscara do Jiraya. Bem na sua frente uma enorme porta dourada deixava o lugar com ares de paraíso. Ao lado dela uma placa onde se lia: Entrada Franca. Tião aproximou-se do portal que se abriu automaticamente. Ao passar pelo vão, uma voz suave e direta deu as boas vindas:
- Seja bem vindo! Tá gordo, hein?! - disse a porta com toda sua franqueza.

Tião entrou ressabiado. O ar cheirava a penteadeira de meretriz e comida requentada, parecia a casa de uma tia minha. Cambaleando feito um recém morrido, deu alguns passos tomando cuidado onde pisava. O quinto dos infernos não se parecia com nada que havia imaginado. Não era vermelho e flamejante como nos sonhos em que ele e Natasha transavam numa jacuzzi de lava escaldante. Era rosa. Não era feio e escuro como o Maizena, seu amigo negão da pelada. Era claro e bem decorado. Quando andou um pouco mais longe explorando o lugar, uma nuvem densa de fumaça branca formou-se diante dele. Tião tossiu, esfregou os olhos e ajudou a dissipar a nuvem balançando o cotoco. Foi quando viu, por entre a névoa, uma criatura ficar nítida e ganhar forma.
- Tião Butterfly Caparaó Moskovsk! - disse a coisa enquanto riscava o nome na papeleta.
- Onde eu tô? - perguntou confuso e assustado.
- Isso aqui ô, ô, é um pouquinho de Brasil iá, iá. - A coisa cantarolou e riu com ironia, deu-lhe um crachá onde se lia: 愚蠢, e mandou que a seguisse.
Andaram longamente por anos - ali o tempo passava diferente - e a cada passo Tião matava um pernilongo, que morria dizendo: vou estar morrendo, senhor. Já estava de saco cheio da falta de conversa, mas era inútil a tentativa de puxar papo com a coisa que o guiava. Andando rápido e assoviando um poema musicado de Caetano, ela seguia sempre na frente, anotando e passando as páginas do bloco. Vez ou outra virava-se para trás e fazia menção de que ia falar alguma coisa, mas só resmungava e voltava pro seu caderninho. Após a longa e muda jornada, chegaram, finalmente, a uma imensa sala iluminada, onde o eco dos passos parecia ser engolido pelo ar. Tião achou estranho os barulhos que lugar emitia e aproximou-se de uma das paredes para escutar melhor.
- Vai se acostumando com a música - disse a coisa sem tirar os olhos das linhas em branco.
- De onde vem essa gemeção?
- Vem do lugar pra onde você tá indo. Quer comer alguma coisa?
Tião fez que sim com a cabeça e logo estava comendo o croissant que o diabo amassou. Foi encaminhado para uma longa fila de espera cheia de pessoas como ele: feias e sem esperança. Sentiu-se, por um segundo, aguardando atendimento urológico num hospital imundo do SUS. De tempos em tempos uma porta se abria e uma senhora recatada, dessas que não se encontra mais (tenho a impressão de que já escrevi isso), chamava um nome. A pessoa se dirigia à porta e de lá não voltava.
Atrás de Tião estava uma criança toda serelepe.
- Tio, escuta essa! Como é que um índio matemático cumprimenta o outro?
- Não sei. - respondeu, Tião.
- 8 π. - A criança caiu na gargalhada e tremeu a perninha que sobrou do acidente.
(Nota de esclarecimento: Desde que o papa Bento XVI acabou com o Limbo, as crianças mortas, sem batismo, vão todas pro inferno.)
A senhora da porta dos desesperados gritou o nome de Tião e ele levantou prontamente. A hora com o Beuzebú é quase sempre marcada sem aviso, mas ainda assim ele não admite atrasos. Tião entrou mineiramente desconfiado, andou devagar pra não fazer barulho, até porque ninguém quer incomodar o capeta. Luzes neon brilharam numa enorme passarela, uma cortina de fogo se abriu e o tinhoso materializou.
- Uma mulher? - exclamou depois de ver o Coisa Ruim.
- Cuidado com o que vai dizer. Eu sou divina. - disse a satânica criatura com problemas de gênero e aceitação pessoal.
- Vossa capetência me desculpe, mas é que eu fazia outra imagem da sua pessoa.
- Tudo culpa daquela Igreja brega e outdated! Fizeram minha caveira depois da cirurgia. Eu não aguentava mais aquelas nuvens brancas, aqueles panos de algodão orgânico sem caimento, sem glamour. Eu era uma anja fina e mal comida.
- Desculpe o atrevimento, mas sempre ouvi que anjo não tinha sexo.
- Humano, isso é coisa que inventaram pra agradar fiel. Imagine se pega bem uma criancinha rezando pra um anjo da guarda que anda pelado balançando uma harpa de 23 cm. Não pega. Aí a gente tinha que ficar amarrando a coisa pra trás com fita crepe na hora de posar pro Michelangelo. Como por dentro eu sempre fui uma mocinha, aproveitei a deixa e cortei fora.
- Foi aí que você caiu dos céus?
- Mais ou menos. Antes de operar, eu e David, meu primo alto e forte, tinhamos um caso. Coisa antiga, mas só rolava uma meiose. Quando finalmente virei menina e pude me entregar pra ele, papai abriu a nuvem bem no momento em que eu levava uma ligeira desvantagem. Foi um Deus nos acuda. Parecia que eu tava dando uma coisa que era dele. Resumindo: Deus não acudiu e fui mandada pra cá. Mas não precisa me olhar com essa cara não. Agora isso aqui tá ótimo. Na época que eu vim era pedra e fogo. Um ó. Eu que dei um up nesse muquifo.
- Mas me conta uma coisa - Tião se interessou pela história - Esse David, seu primo, é aquele da estátua de Florença?
- O próprio! - A capeta se abanou enquanto respondia - Michey (como Michelangelo era conhecido nas mocadas boêmias) secaneou o coitado com aquele penduricalho ridículo. O bofe dele, Tommaso dei Cavalieri, fugiu com meu primo bem enquanto terminava a estátua. Deixou ele possessed, e com razão.
Tião ficou embasbacado com a história. Seus anos de catequese na paróquia Nossa Senhora da Pastilha Radioativa, em Kiev, o fizeram acreditar que o Capeta era uma criatura das trevas, má e sem coração. Nos dias de malcriadez (essa palavra existe e eu olhei no dicionário) sua avó costumava dizer: “Se não parar com isso o Capeta vem passar o rabo quente na sua boca”, ou ainda “Vai tomar no cu, menino”. O fato é que aquele travesti de rosa choque que abria sua vida eterna bem diante dele era quase uma antítese de tudo que imaginava.
O papo corria relativamente bem e Tião se sentia confortável no inferno, mas pensar que estava morto dava um certo nervosismo. Sem perceber, não parava a bunda quieta na poltrona de pelúcia, escorregava feito um sabonete de sauna gay. A Tinhosa, vendo aquela mexeção toda, abriu espaço pro diálogo terapêutico.
- O que te incomoda, humano?
- É que é minha primeira vez, sabe? Sou novo nesse negócio de morrer de verdade. Quando me enterraram vivo pra eu ganhar asas, senti que não era a morte, mas sim uma chance de recomeçar e dar valor às coisas que realmente importam. (Antônio Roberto, 2001).
- Meu caro, tudo na morte tem motivo. Nossa administração desceu com você pra pedir ajuda. Estamos travando uma batalha inglória contra um inimigo muito carismático.
- Quem?
- O nome dele é Elvis.
- O Presley? Mas rola na boca miúda, lá em cima, que ele não morreu.
- Morreu sim e quem matou fui eu. Chamei o cara pra fazer presença VIP na festa de inauguração do meu lounge. O problema é que a medida que os contemporâneos dele foram chegando, endeusaram o sujeito, coisa que não é permitida pela minha administração.
- Não tô entendendo onde entro nesse papo.
Tião estava cansado de ser recrutado pra resolver pepinos dos outros. Só perdia em aliciamentos pra Robert Langdon, que resolvia todos os problemas que Dan Brown criava.
- Vou te explicar. Vamos dar uma volta lá fora e te digo o que fazer. Apanhe algo pra beber no caminho. - A Tinhosa abriu a porta enquanto falava.
- Quero apanhar na rua. Passamos num butequinho qualquer e pego qualquer coisa.
Enquanto andavam, Tião observava o inferno com atenção. Tudo se parecia muito com a Terra. Havia uma aparente organização social, as pessoas - pegando fogo - desenvolviam atividades produtivas, compravam, dormiam e faziam suas necessidades como se estivessem vivas. Haviam ruas e avenidas bem sinalizadas por onde os mortos pecadores andavam. Numa delas, uma placa atraiu o olhar de Tião.



Era a informação que precisava pra sair dali.
Frase do próximo capítulo:
"Debaixo do cacho tô querendo bis"
Paula Fernandes

O capítulo também deverá conter o nome de uma cidade de Omã, um parágrafo enigmático e uma macumba pra trazer a pessoa amada.

(Lembrando que todos os capítulos desta última temporada deverão conter a palavra “último”. “Última”, “últimos” e “últimas” também valem. “Ultimamente”, “ultimato” e “ultimogênito” estão proibidas.)

segunda-feira, 4 de abril de 2011

VII – Visão além do alcance









Frase do capítulo:
“Embora ocupasse um cargo importante da hierarquia católica, tinha um apelido engraçado, Padre Perereca.”
Laurentino Gomes, no livro 1808.



- E então, gente. O quê que vocês acham? - perguntou Lígia, franzindo os supercílios.
Havia uma tensão danada no ar. Um clima de desconfiança, uma sombra negra eclipsando o sol. A fotogênica moçoila na ponta da mesa redonda, Clarissa Franciscana do Céu, verbalizou o sentimento geral: - Eu acho que a gente devia matar ele. Matar ele. Estavam todos olhando para o pai de Tião. Ele ouviu a ameaça sem desviar o olhar, sem ao menos suar frio ou borrar as calças em segredo. Estava apenas visivelmente decepcionado.

- Vocês estão cometendo um ggande êggo.
- Quem é Diego?
- Eu tô aqui pga ajudar vocês, cagamba. Jugo que não sou quem vocês tão pensando. Eu sou do povo, eu sou um zé-ninguém!
- Eu proponho uma votação – disse Clarissa Franciscana – Quem quer matar ele levanta a mão.
- Por mim, morre – topou Marinalva.
- Já pra forca – consentiu Ariranha.
- Pau nele – compactuou Lactobacil. 
Não houve sequer um voto contra: um a um, todos os jovens carrascos concordaram que mandar o velho para os braços ossudos da Morte era o caminho mais sensato.

- Você morreu – sentenciou Dadinho.
O pai de Tião balançou a cabeça e tirou um papelzinho dobrado do bolso. Abriu, jogou na mesa e finalmente extravasou sua cólera:

- Seus buggos! Cês matagam o Beiga-Mar! Deixagam a ABIN ganhar!
- Yeah!! - gritaram Clarissa Franciscana, Marinalva e Dadinho, os membros da equipe vencedora. Toda partida terminava assim: as cabeças maquiavélicas da ABIN ludibriavam toda a população do Morro, convenciam que o Beira-Mar era o vilão da história e garantiam a própria vitória.
Tinha sido essa a idéia de Lígia: aliviar toda aquela tensão que pairava no Rancho do ZÁZ – com o seqüestro da galera no mato, o doidão com a máscara de Jiraya, a invasão da polícia e o gambá encontrado na caixa d'água em estado de putrefação – jogando o jogo preferido da galera. “ABIN” era uma versão brasileira Herbert Richers do popular “Detetive”, com a diferença de que os assassinatos eram mais democráticos e decididos em conjunto.
- Vamos jogar de novo? - perguntou Lígia, pronunciando sua segunda frase num mesmo capítulo. Um recorde!
- Eu num gosto de jogo. - disse ZÁZ.
- Alguém aí quer dar um mergulho? - perguntou Laís Abel, fascinada com o mundaréu de água ao seu redor.
- Só se for a-go-ra! - disse Clarissa Franciscana. Ela imediatamente jogou a roupa no chão e saiu correndo em direção à lagoa, batendo palminhas e equilibrando no nariz um limão-capeta tirado do pé. A turma pintou a cara com o carvão do churrasquinho que queimava ali do lado e seguiu a Mother Foca, entrando na lagoa aos pulos, como mineiro no mar de Guarapari, ao mesmo tempo em que todos abriam os braços e berravam para os céus um clássico dos Originais do Samba:
- Vai ter bacubufo... olha o bacubufo no caterefofo!
Dadinho e Paulo Saci foram os únicos da turma que dispensaram a histeria coletiva e ficaram ali no quiosque do Rancho, tomando um caipi-absinto e beliscando uns conosquinhos na companhia do pai do Tião.
- Eu queguia aggadecer vocês pela camagadagem. Pagticipar desse jogo deu uma acalmada no estguesse. E queguia me desculpar mais uma vez pelo compogtamento do Tião.
- Sem galho – disse Paulo. - A gente sabe que um filho psicopata nunca é culpa dos pais.
- É – disse Dadinho, colocando mais absinto no copo do velho. - Bebe mais um pouquinho aí, não se avexe.


- Será que a dromedária também quer um golinho? - perguntou Paulo. Ela estava esparramada na piscina em formato de feijão do outro lado do quintal, pegando um bronzeado, no melhor estilo camelo do Refresco Axé.
- Natasha! - berrou o pai de Tião. - Nossos anfitguiões tão ofeguecendo uma bebida!
A tilópoda se levantou com má vontade e veio até o quiosque, rebolando a corcova.

- Dá uma breja aí – pediu.
- A gente só tem absinto – disse Dadinho, levantando a garrafa verde.
- Serve – disse Natasha. Como sua pata ungulada artiodáctila era ruim pra segurar copo e a bocarra era desengoçada demais pra beber de canudinho, acharam mais prudente servir-lhe a bebida num baldão de vinte litros.
***
Quarenta minutos depois, o clima era de festa. A risaiada tomava conta, Natasha contava casos pornográficos e o pai do Tião estava tão bêbado que sua língua tinha dois nós de marinheiro e um de gravata.

- Aí eu falei: papai-e-mamãe não dá, Tião, porque machuca a minha bola! HAHAHAHA!! - Natasha sempre ficava histérica quando lembrava de suas peripécias.
- Estga guistóguia é gótigma – disse o pai de Tião.
Paulo olhou para a Dadinho e os dois concordaram que estava na hora. Paulo tirou do bolso o poema ditado por Tião no esconderijo, que ele havia impresso.

- Aproveitando a descontração, conta aí um caso sobre a prima Pavlova.
- Pguima Pavlova? - de repente o pai de Tião ficou sério.
- É, essa prima pra onde o Jirayão queria mandar a gente. Tá aqui no poema. Quem é a guria?
- Ele nunca me contou sobre prima Pavlova nenhuma – disse Natasha, enciumada.
- E pro senhor? - questionaram o velho.
- Vocês sabem, eu conheci o menino já cguescido, sou meio distante da família...
- Mas ele nunca mencionou nenhuma Pavlova?
Natasha e o sogro se entreolharam. Talvez fosse o absinto. Talvez fosse o fato de estarem afastados da presença ameaçadora de Tião. Mas agora, os dois sentiam que podiam confiar em Paulo e Dadinho e contar o pedaço que sabiam.

- Bom, ega uma vez uma fazenda no Acgue...
Segundo o relato, as caraminholas na cabeça de Tião começaram meses atrás, no dia em que ele abriu uma misteriosa arca iluminada na Fazenda Pegapacapá e foi presenteado com a máscara de Jiraya e a motosserra Stihl. Ele meio que endoidou depois disso. Não falava coisa com coisa, não comia direito, não bolinava mais Natasha na frente das visitas. Fica só repetindo: “Prima Pavlova tava certa. Ela tava certa”. Às vezes ele ficava num looping hipnótico, olhando para o infinito e dizendo: “Dadinho Pinel, Paulo Saci. Dadinho Pinel, Paulo Saci”. O pai e a esposa já não sabiam mais o que fazer. Quando perguntavam a Tião o que é que ele queria, quem eram essas pessoas e por que ele não tirava mais aquela máscara vermelha ridícula, ele respondia apenas que teve uma visão do futuro e sua missão era fazê-la acontecer. E que a prima Pavlova estava certa, fosse ela quem fosse.

- Foi por isso que ele pegseguiu vocês. Ele tava de olho há meses, espegando a melhor opogtunidade pga captugá-los. A gente só não sabe pogquê.
Paulo teve um estalo e deu a última golada em seu caipi-absinto.

- Dadinho, pega a chave do carro.

***
Tião bocejou pela terceira vez na frente do padre. Era uma figura curiosa. Embora ocupasse um cargo importante da hierarquia católica, tinha um apelido engraçado, Padre Perereca. Talvez a alcunha viesse de seu nome de batismo, Vagino Clitório Vulvênio Xoxó, mas não havia certeza. Sua função na cadeia de Sapeca-Iaiá era arrancar confissões onde até a massagem relaxante do Tonhão havia falhado. O presbítero coçou o bigodinho de Hitler e abriu os grandes lábios para falar mais uma vez, com bafo de bacalhau:

- Vamos, meu filho. Confessa que matou a empregada, eu te dou a extrema unção e posso ir embora ver minha novela.
- Eu já expliquei um mol de vezes, seu padre. Pode me acusar de seqüestro, intimidação, zoofilia, roubo de jabuticaba e dedo no nariz, mas eu não matei empregada nenhuma.
- Vamos tentar de novo. Confessa que mat... – uma batida na porta interrompeu a fala de Perereca.
- Pode economizar saliva, padre. Pagaram a fiança do rapaz – era o Cabo Úéssebê, com um ar meio desconectado.
Tião foi despejado pra fora da delegacia e viu que já era noite. Acostumou os olhos à penumbra das ruas do vilarejo e reconheceu os responsáveis por sua libertação.

- Primeiro me jogam pros tubarões, depois me pescam de volta? - disse ele para Paulo e Dadinho.
- A gente ainda não terminou aquele papo – disse Paulo.
- É – disse Dadinho – E nós gastamos todas as nossas economias, mais o megafone do Manquino, o kit-escoteiro da Lactobacil, os apetrechos sadomasoquistas do ZÁZ e meu álbum de figurinhas da Marisa Monte pra tirar você do xilindró e ouvir o resto da história.
- E trouxemos um agrado – completou Paulo, devolvendo a Tião sua máscara de Jiraya. Ele abanou as asas de borboleta em agradecimento. Sem o disfarce, sentia-se nu.
Os três encontraram um boteco ao lado de um trator enferrujado da John Deere. Preferiam conversar em Sapeca-Iaiá antes de voltar ao rancho, pra evitar inconvenientes como uma dromedária toda bêbada e queirosa afim de brincar com o tiãozinho. Precisavam de concentração. Precisavam de respostas. Como aquela que não queria calar: quem era a prima Pavlova?

“Pavlova Aleksandrina Shureta Moskovska”, disse Tião, “minha prima predileta. Crescemos juntos em Pripyat, brincando de otorrinolaringoginecoproctologista, tomando vodka com Ninho Soleil. Depois a vida tem dessas coisas, né. Cada um seguiu seu rumo, Pavinha casou, pariu, engordou, sabe cumé. Mas a gente se encontrava sempre que dava e ela adorava ouvir minhas histórias de Chernobyl. Sexo, drogas e radioatividade, prato cheio pra conversa de bar. Pavlova sempre dizia que minha vida daria um livro, mas eu só achava graça e ignorava. Vocês sabem, escrever é coisa de desocupado.”
“Mas de tanto ela me aporrinhar com essa história, prometi que um dia lançaria uma biografia. E que ela seria consultada no processo, afinal, lembrava mais da minha vida do que eu. E fui vivendo, sem lembrar da tal promessa. Ucrânia, Minas Gerais, Acre, Ucrânia, Acre, Minas Gerais... aquela vidinha. Até que um dia...”

Close no rosto de Tião em câmera lenta, música de suspense. 
“Um dia, encontrei uma arca. E quando abri essa arca, recebi uma máscara, uma motosserra e tive uma visão. Foi um transe que durou poucos minutos, mas que mudou a minha vida. Agora eu tinha um propósito a seguir.”

- Ih, baixou o Paulo Coelho – comentou Dadinho.
- O que foi a visão? A resposta para a vida, o universo e tudo mais?
“Não. Uma série de jornais e revistas aparecendo na minha frente, que nem nos filmes, quando querem dar um salto no tempo. Aquele tanto de capas e manchetes, uma atrás da outra. E veio revista...


...veio edição especial...

...veio jornal.”

“Todas apontavam a mesma coisa: eu ia ser famoso pra cacete, venerado pelas massas, e tudo isso só ia começar com o lançamento de um livro escrito por Dadinho Pinel e Paulo Saci. Era perfeito, eu nem ia precisar queimar neurônio, era só encontrar esses dois desconhecidos e forçá-los a escrever pra mim. Eu não tenho grana pra pagar ghost-writer, né. Pra mim ficou claro na hora, essa máscara e a motosserra eram a única forma de convencer vocês a fazer o trabalho de graça.”
As peças pareciam se encaixar. Paulo e Dadinho matutaram: trabalho escravo por trabalho escravo, talvez fosse melhor um que os tornasse mundialmente conhecidos do que ficar fazendo cartão de “feliz reencarnação” para os monges da Rede Tibetana. Uma viagenzinha pra Ucrânia também não faria mal algum.

- A gente topa, seu Jiraya – disseram, selando o negócio.
A volta para o rancho foi bem animada. Dadinho dirigia com tranqüilidade apesar do breu na estrada de terra, conversando com Paulo sobre os dias vindouros.

- Aí a gente zás, fica famoso e vende muito livro e zás...
- E conhece um monte de ucranianas e zás, e ganha o Nobel, e zás, e... DADINHO, OLHA O TATU!!
Foi tudo muito rápido. Um tatu-canastra, gordo e carapaçudo, atravessou a estradinha na frente do carro. Dadinho girou o volante no ato, intentando desviar do dasipodídeo, mas a manobra não saiu como planejada e o carro capotou uma, duas, três vezes pelo matagal em volta da estrada.

Paulo e Dadinho tiveram escoriações leves e acordariam depois de apenas umas semaninhas de coma, que forneceriam uma desculpa mais do que conveniente para matar trabalho.
Tião, asfixiado pela cordinha da máscara de Jiraya, morreu na hora.

Frase do próximo capítulo:
"Quero apanhar na rua."
Bruno Gagliasso
O capítulo também deverá conter uma piada matemática, um ideograma chinês e o sentido da vida.

(Lembrando que todos os capítulos desta última temporada deverão conter a palavra “último”. “Última”, “últimos” e “últimas” também valem. “Ultimamente”, “ultimato” e “ultimogênito” estão proibidas.)


terça-feira, 21 de dezembro de 2010

VI - Born to be, uai




Frase do capítulo:
"Inté, tropa. O tio tá cansadão. Rumo ao pijamão listrado..."
(William Bonner, no Twitter)


Tião não esperava aquele destino. Amarrado por uns fedelhos com espinhas na cara e pêlos nas mãos, ele reconhecia que a batalha estava perdida, mas não a guerra. Todos aqueles anos a mais teriam que servir pra alguma coisa e ele partiu pro ataque.

- Façamos um trato então. - disse em tom de desafio - Vocês me deixam ver meu pai e minha mulher e conto o que estava tramando.

Dadinho olhou de soslaio para Paulo e ambos saíram da cozinha para matutar a respeito.

- Paulo, esse cara tá bolando alguma coisa. Isso aí de pedir pra ver o pai e a mulher é só pra ganhar tempo. Conheço esse tipinho típico num é de hoje.
- Dadim, o cara deve tá só preocupado com a família. Além do mais preciso descobrir que diabo de poema foi aquele que digitei no cativeiro.

Dadinho coçou a cabeça e, sem argumentos, concordou com Paulo. Gritou para Bernalonga trazer o velho e a dromedária e entraram os dois de volta na cozinha.

- Logo mais você se junta aos seus. Enquanto isso vai falando! - Paulo estava com pressa. - Que palhadaçada toda é essa?
- Vocês cometeram um erro muito grave me trazendo pra cá. - Tião disse isso e gargalhou canastronamente.
- Erro foi a gente ter embarcado nessa viagem que tinha tudo pra dar errado. Bem que a mãe da Laís avisou. Quando a bola de massa do pão de batata não bóia no copo... tsc tsc tsc.
- Dadinho, concentra no interrogatório que a merda está feita. Apressa o Bernalonga e pára de lavar a mão.

Dadinho ia saindo da cozinha quando o pai e a camela chegaram. Os dois estavam soltos, sem amarras e Natasha estranhamente bem comportada. Podia até ser medo da escolta linha dura de Tarardo Manquino, que trazia em uma mão um longo bastão de ferro e na outra um megafone que tocava a música do Titanic repetidamente, mas a baba no canto da boca de Natasha denunciava que o motivo era outro.

- Por que minha mulher tá babando desse jeito? - Perguntou Tião, como mostra a interrogação depois da frase.
- Ela tomou uns comprimidinhos que descolei de um chapa meu. TÔ MUITO LOUCO, MAMÃE! - disse Manquino mancando - Dei pra sua tylopoda esposa uma dose cavalar de dinitrofenol. Um medicamento desacoplador do fluxo de elétrons que vai matá-la em poucos minutos se não tomar logo o antídoto.

Momento médico da terceira temporada: Dinitrofenol é um agente desacoplador porque tem a capacidade de isolar o fluxo de elétrons e o bombeamento de H+ na síntese de trifosfato de adenosina (ATP). Ele dissipa o gradiente de H+, reduzindo a produção de energia pela mitocôndria. Nessas condições, os alimentos não são usados para produzir ATP, o que leva à perda de peso, fadiga muscular, ataxia e outros sintomas relacionados. A administração de dosagem inadequada pode levar à morte.

Tião desesperou-se com a possibilidade iminente de perder Natasha mais uma vez. Debateu-se na cadeira e gritou palavrões impronunciáveis até por uma dona de casa rebelde. Lígia, que só abria a boca para comer, beber e chupar, manifestou sua perplexidade dizendo alguma coisa que não foi possível ouvir e retirou-se.

- Hanuman não perdoará suas almas se algo acontecer com minha esposa.
- Esse discurso palavroso só está atrasando as coisas. Abre logo o bico e injetamos o antídoto na sua digníssima. - Isso quem disse foi Dadinho.

Tião respirou fundo e começou a lamúria. Explicou pra turma toda sua longa caminhada desde a Ucrânia até Belorizonte. Vez ou outra chorava e, a medida que ia abrindo o bico, Tarardo Manquino injetava o antídoto na bundinha peluda de Natasha. Quando finalmente começou a discorrer sobre os versos que incucavam Paulo, a campainha do rancho tocou. Anãma foi ver quem incomodava. Volta ela dizendo:

- Pessoal, tem um cara fardado aí na frente dizendo que tem um mandado de busca. Tá querendo entrar junto com o batalhão dele.
- Ferrou tudo. Esse cara vai ver o Tião amarrado aqui na cozinha e vai pensar que somos sequestradores inescrupulosos e sem coração. - preocupou-se Paulo.

Antes que tivessem tempo de esconder os prisioneiros, o homem fardado forçou sua entrada rancho adentro. ZÁZ, que tinha uma queda por autoridades violentas, bateu palminhas e salivou um pouco, mas tentou impor respeito dentro de sua propriedade.

- Quem o senhor alto e forte pensa que é para entrar no meu rancho sem ser convidado?
- Desculpem o mau jeito. Sou Dom Lázaro Venturini, delegado do condado de Sapeca-Iaiá. Tivemos informações de que os ocupantes do veículo abandonado na estrada teriam sido trazidos para esta localidade. Positivo? - o delegado tinha um palavreado incondizente.
- Sim, o carro era nosso, mas avisamos nossas famílias de que estava tudo bem. Minha mãe já até desalugou meu quarto. - Paulo se adiantou.
- Novamente me desculpo, mas o inquérito ainda está em adamento. Seguimos o rastro de jujubas pela trilha na mata e encontramos um casebre completamente destruído pelo fogo. Juntando as pistas e seguindo o cheiro de misto-quente, chegamos aqui.
- Seu delegado, a gente agradece a visita, mas por aqui tá tudo certo. - disse Bernalonga, enquanto tentava esconder Tião colocando-se entre ele e o delegado.

Todo o esforço de Bernie - como era conhecido nas cabines eróticas que frequentava no centro da cidade - foi em vão. Dom Lázaro, depois de algum tempo de conversa, viu que algo se mexia atrás de Bernalonga. Foi então que ouviu-se um barulho e duas imensas asas de borboleta ergueram-se no ar. Era assim sempre que Tião ficava nervoso.

Num pulo assustado, o delegado Venturini projetou-se para trás e, de joelhos, apontou a arma para Tião, que mesmo amarrado metia medo.

- Muriquis me mordisquem - é como dizem “macacos me mordam” no Vale do Jequitinhonha -. O que é isso na cozinha de vocês? Tive um déjà vu. (escrever déjà vu é muito legal porque os acentos das vogais apontam pro pingo do jota).
- Calma delega. Esse é o cara que correu atrás da gente na estrada. Sem a motoserra não tem perigo. Precisamos tirar uma história a limpo com esse sujeito. - Dadinho fazia parecer que estava tudo bem.
- Eu tô reconhecendo esse meliante, doutor. - disse o Cabo Úéssebê - Lembra do caso de Dona Pilar Gouvêia? Foi ele que matou a empregada de estimação dela.

Tião ouviu aquela acusação sem fundamento e riu, debochadamente, na cara do oficial. Podia conviver com tudo: asas de borboleta, uma mulher dromedária, falta de sexo por inúmeros capítulos, mas ser acusado injustamente não.

- Francamente, não sei do que vossas reverendíssimas excelências estão falando. Cheguei a pouco de fora. Não matei ninguém.
- Isso a gente vai ver na delegacia enquanto o Tonhão faz uma massagem relaxante em você. - o delegado disse isso e mandou recolher o Tião.

Dom Lázaro, limpou da testa o suor do longo dia de trabalho e se despediu dos meninos com um aceno, das meninas com um beijo e de ZÁZ com um abraço apertado pra ele sentir o piru.

- Inté, tropa. O tio tá cansadão. Rumo ao pijamão listrado... seu animal imundo. - disse por último, chutando Tião pra fora.

Era de se esperar um alívio geral, afinal, tinham ficado livres de um potencial assassino. Mas o que se viu foram expressões de preocupação, mais ou menos como o Cigano Ígor demonstrando amor por Dara em Explode Coração. Com Tião nas mãos dos policiais o segredo do bilhete poderia estar perdido. Além do mais tinham deixado pra trás uma camela gigante e um pai de língua presa. Precisavam de um plano.

- Gente, eu sei o que podemos fazer. - disse Lígia.


Frase do próximo capítulo:

“Embora ocupasse um cargo importante da hierarquia católica, tinha um apelido engraçado, Padre Perereca.” - Laurentino Gomes, no livro 1808.

O capítulo também deverá conter um trecho de um samba, uma máquina agrícola e uma posição sexual.


(Lembrando que todos os capítulos desta última temporada deverão conter a palavra “último”. “Última”, “últimos” e “últimas” também valem. “Ultimamente”, “ultimato” e “ultimogênito” estão proibidas.)

domingo, 31 de outubro de 2010

V - A Língua da Justiça



Frase do capítulo:
"Vocês gostam de se emaconhar, não gostam? De ficar 'doidão', 'chapadão' e depois comem, comem, comem"
(Perua de Deus, no livro Cócegas, pág 97)

- Buááááá, ele morreeeeu, ele morreeeeu! - lamentava a estranha noiva numa voz tetêespíndolicamente aguda, com a cabeça baixa sobre o inerte anãozinho.

Tião ficou todo sem jeito.

- Calma, minha filha, calma.
- Unhééééééé!!
- Me conta, o que aconteceu? Do quê que ele morreu?
- De doença de rato! - respondeu a moça. O corpo do anão de capacete pareceu tremer por um instante, e Tião podia jurar que ouviu o cadáver rir. Isso mesmo. Rir, o breve verbo rir.

Dentro da sala, Dadinho e Paulo Saci não entendiam bulhufas. Aquela mulher era alta demais para ser noiva de anão. A cabeleira preta e o véu tampavam sua cara, mas um detalhe esquisito chamava a atenção – o que era aquilo, barba?

De repente, o som de um megafone invadiu o recinto:

- MAMÃÃÃÃE! EU ESTOU LOUCO, MAMÃÃÃE?!
- Carái – Tião disse ao seu pai – Isso tá mais sem sentido do que o Tiririca comemorando o Dia do Livro. Vamo lá, painho, vem comigo ver que porrééssa.

Chutou a noiva e o anão pra dentro da sala, saiu acompanhado do pai e fechou a porta. A noiva pôde enfim levantar o véu, e foi imediatamente identificada por Paulo e Dadinho.

- Bernalonga!
- Call me Bernie Joe, or I'll drag your soul to hell!! - urrou a noiva barbada, fazendo mão de fogo.

O anão falsamente morto levantou batendo palminhas, tirou o capacete e também revelou sua identidade: era Anãma Aurélia Nicodemo Partos Madeira Zamela Roque Videira. Assim como Bernalonga, ela tinha sido colega de sala de Paulo e Dadinho, e estava no Rancho do ZÁZ com a galera no momento em que eles receberam o telefonema de Laís Abel e Nívea S. contando o que havia acontecido.

- Aí a gente achou que ia ser engraçadaço pegar umas roupas véias que o ZÁZ usou naquela adaptação teatral de “O Senhor dos Anais” e vir aqui resgatar ocês – explicou Bernalonga.

A porta se abriu com um chute. Era Tarardo Manquino, o maluco com o megafone, acompanhado do resto da turma. Misael, namorado de Anãma, aproveitou para puxar a menina pelo bracinho e arrastá-la para fora:

- Chega de teatrinho, vamo cruzá.
- Como é que cês conseguiram passar pelo doidão da motosserra, o pai dele, o dromedário?... - quis saber Paulo Saci.
- Fácel – disse Tarardo Manquino – Eu dei uma baforada na cara deles. Entraram em coma alcoólico na hora. Nuassa! Eu estou louco, mamãe!

Dadinho notou que uma das garotas que veio com eles, quietinha perto da porta, trazia nas mãos uma caixinha de fósforos.

- Que isso aí na sua mão, Lígia?
- Nada não – ela respondeu, pausadamente.
- Vambora pro Rancho, galera? - pediu Paulo – Tô precisando de uma cachaça.
- E eu de um banho – completou Dadinho.
- E a gente num vai fazer nada com esses fí di rato que raptaram vocês? - perguntou Bernalonga.
- Hm, verdade – disse Paulo – Eu tenho uma idéia.

Tião não pôde fazer nada para impedir que o carregassem de seu esconderijo e o jogassem dentro de um porta-malas. Estava tão inebriado com o bafejo etílico que levara que não conseguia mover um músculo, tinha alucinações e só conseguia distinguir alguns sons e vozes.

- Fuuummm, que asa! Vamo dar o fora daqui.
- Sobrou alguém lá dentro?
- Não, tá todo mundo aqui.
- Quitandinha! Quitandinha!
- Cadê a Lígia?
- Tô aqui, gente.

Mesmo dentro do carro, Tião conseguia sentir um calor muito forte e um cheiro de fumaça se espalharem pelo ambiente.

- Que isso, Lígia? O quê que cê fez??
- Ah, amanhã eu me arrependo.
- Como assim, o que você fez?

E a última voz que ele ouviu antes de apagar de vez foi a da menina que falava pausado:

- Botei fogo no esconderijo.

***

Quando Tião acordou, já era dia. Estava com uma cefaléia foderosa, sem a máscara de Jiraya e amarrado numa cadeira. A pia cheia de louça suja e a pilha imensa de mistos-quentes (que plural mais feio) sobre a mesa não deixavam dúvidas de que estava dentro de uma cozinha. Na porta, um misterioso bilhete: “Deixe a porta fechada para que o rato não passe para o outro lado”.

Contrariando o aviso, a porta se abriu e um galerão adentrou a cozinha. Uma garota de cabelos pretos e uma pinta no canto da boca pegou nove mistos-quentes para comer sozinha. Os outros também se serviram, mas com parcimônia. Paulo Saci e Dadinho, revigorados após a noite de sono, sentaram-se à mesa.

- Vocês gostam de se emaconhar, não gostam? De ficar “doidão”, “chapadão” e depois comem, comem, comem – provocou Tião.
- Quem muito fala pouco acerta – retrucou Dadinho.
- Onde é que eu tô? Cadê meu pai? Cadê minha esposa? Posso pegar um misto-quente?
- Não – disse Paulo Saci. - Você só vai ter respostas e comida se explicar, tintim por tintim, que diabos você tava tramando.

Frase do próximo capítulo:
“Inté, tropa. O tio tá cansadão. Rumo ao pijamão listrado...”
(William Bonner, no Twitter)

O capítulo também deverá conter um deus hindu, o nome de um personagem vivido por Lima Duarte e um parágrafo nada engraçado.

(Lembrando que todos os capítulos desta última temporada deverão conter a palavra “último”. “Última”, “últimos” e “últimas” também valem. “Ultimamente”, “ultimato” e “ultimogênito” estão proibidas.)

terça-feira, 21 de setembro de 2010

IV - Uma Xácara para Pavlova



Frase do capítulo:
"Mas para essa coisa de ficar sentado com criança fazendo figurinha não tenho paciência nenhuma."
(Ziraldo)


- Digita aí enquanto eu dito. - Tião parecia ter pressa e seguiu falando. Paulo, com seus dedos frenéticos, transcrevia tudo no 386 de 1993.


Prima Pavlova, minha querida

Quanto tempo se passou

Mudei tanto, você não viu

Nem um cartão você mandou

Apesar disso ainda me lembro

O seu sonho não acabou


Saí da Ucrânia há tanto tempo

Vim atrás de um grande amor

Me transformei pelo caminho

Tomei chuva e senti dor

Ainda cumpro a tal promessa

Não me esqueci do seu clamor


Nessa terra onde moro

Tem de tudo. Ouro e prata

Tem também uns pescadores

Que eles chamam de “Os Pirata”

Mas sua encomenda eu achei

Em terra firme, no meio da mata


Sei de suas preferências

Prometo não decepcionar

Já chequei os “documentos”

Não são grandes, mas dá pra usar

Tome cuidado com com excesso

Não use muito pra não gastar


Me despeço nesses versos

Com saudade no coração

Logo mais os garotos chegam

Tô mandando de avião

Um presente do primo Vlad

Pra guardar de recordação


- Agora imprime isso e coloca no bolso. Vou embalar vocês dois pra viagem.


Tião falava muito sério. Paulo cantarolava em rítmo flamenco os versos que acabara de escrever e se deu conta de que estavam ferrados. Enquando matutava um plano beleza, rezava pra que uma entidade baiana poderosa como Xangô os tirasse dali. Sussurrou para Dadinho, que estava entretido com seu sabonete antisséptico, e aproveitou a distração de Tião para copiar os arquivos do computador para um disquete flexível.


- Anda muleque. Imprime logo esse bilhete. Vou mandar vocês de presente pra prima Pavlova ainda hoje. Quando saí da Ucrânia ela me pediu um souvenir.

- Mas por que você escolheu logo a gente? Com tanto badulaque por aí. - Paulo argumentava

- É mesmo. Cheio de postais, criancinhas e órgãos variados. - Dadinho também se manifestava.

- Vocês devem saber que não os escolhi pela aparência. Precisava de alguém pra digitar esse bilhete, já que com o cotoco não consigo acentuar as palavras.

- Porra mas que que eu tenho com isso? - irritou-se Dadinho, cheio de razão enquanto diretor de arte. - Raptar o Paulo eu até entendo...

- Calma, garotos. A prima tem dois filhos, vocês podem se revezar cuidando das crianças. Enquanto o Paulo diverte um com aquela imitação ótima de Freddie Mercury, você faz a limpeza da jaula do outro.

- Ah, não quero isso não. Posso até dar um sapeca na sua prima, mas para essa coisa de ficar sentado com criança fazendo figurinha não tenho paciência nenhuma. - disse Paulo.


Tião, o Jiraya, observou o comportamento dos dois enquando discutiam entre si o share dos afazeres domésticos. Nenhum deles sabia a real intenção de Tião, mas aquilo não era o que parecia ser. Anos como marketing manager da Chernobyl Nuclear Power Plant lhe deu um feeling para escolher trainees para o job que viria a seguir. O verdadeiro motivo daquela história toda só seria descoberto depois, quando os rapazes finalmente compreendessem o significado por trás do poema criptografado que Tião havia ditado. (Este parágrafo tem o patrocínio de Fisk)


Como quem é vivo sempre aparece, o pai de lingua presa dá as caras. Entra, coloca as chaves sobre a mesa, pára (esse blog é da resistência contra o acordo ortográfico) um pouco em frente à tv, pinica os bagos e senta-se no sofá enquanto olha os dois muleques em pânico.


- Tião, você não acha que agoga tá indo longe demais?

- Pai, o Acre que é longe demais. Isso é apenas um acerto de contas. Fui chamado para uma missão quando abri aquela arca iluminada. Vou até o fim nem que seja a última coisa que eu faça.


Dadinho olhou para Paulo com uma cara de “peidaram aqui”. Estavam confusos e precisando de um plano rápido. Na correria da fuga pelo matagal não pegaram nenhuma ferramenta. A caixa de disfarces de Paulo foi perdida numa fatídica batida na encruzilhada da Via Espressa. Dadinho era contra violência e preferia morrer a ter que suar numa luta corporal contra o dromedário que vigiava a porta.


A aparente calmaria foi interrompida por um barulho do lado de fora. Tião ordenou que o pai tomasse conta dos dois muleques enquando conferia o acontecido. Abriu a porta e se deparou com a terrível cena. Uma mulher vestida de noiva e suja de sangue, usando um cinto de castidade, chorava compulsivamente sobre o corpo de um anão de capacete prateado.


Frase do próximo capítulo:
"Vocês gostam de se emaconhar, não gostam? De ficar 'doidão', 'chapadão' e depois comem, comem, comem" - Perua de Deus, no livro Cócegas, pág 97.

O capítulo também deverá conter um ditado popular, um palíndromo e uma data comemorativa.

(Lembrando que todos os capítulos desta última temporada deverão conter a palavra “último”. “Última”, “últimos” e “últimas” também valem. “Ultimamente”, “ultimato” e “ultimogênito” estão proibidas.)